Digam o que disserem, concordo que arrumar o quarto pode ser, sim, terapêutico, quando o troço está concluído. Porém, na minha humilde opinião, acho uma verdadeira desgraça começar a parada. Acontece que arrumar o quarto é como trabalhar numa empresa há 22 anos, fazendo as mesmas tarefas, e nunca completar a obra. Não importa o quão lindo você deixe o lugar, no dia seguinte ele dá um jeito de te boicotar. É uma espécie de botão “shuffle” do mal. Ao sair e entrar no quarto as roupas e objetos se dispõem aleatoriamente.
A verdade é que, na maioria dos dias, eu estou tão sem vontade de lidar com essas questões “menores” que a minha vida se resume em, dependendo da atividade do momento, mudar o bolo de roupas empilhadas da cadeira para a cama e da cama para a cadeira. Me processem. Trata-se de uma tradição que desenvolvo, com muita dedicação, desde os tempos de colégio. Risos. De qualquer forma, não sou dos piores. Mas estou na fila, certamente. Um dia desses empilhei tantas roupas na cadeira que ela caiu pra trás. Foi bem humilhante. Mas consegui superar o episódio rapidamente.
Deixando de lado os exageros reservados à comédia, gostaria de entrar no tema central que me motivou a escrever o texto em primeiro lugar. Refiro-me a quando me aventuro a organizar as gavetas. Cara, eu tenho apenas 4 gavetas no meu quarto e que Deus tenha misericórdia delas. Estou desconsiderando as gavetas de roupa, porque lá só tem roupa mesmo. Consigo lidar com estas um bocado bem. Falo agora das gavetas de objetos. As gavetas de “outros”. As gavetas das pequenas irrelevâncias. O fato é que, para deixar o quarto bonito, eu acabo enfiando todas as tralhas nessas benditas gavetas até me bater o peso na consciência. Ou até que elas comecem a travar de dentro pra fora.
Acontece que toda vez que começo a botar a mão na massa, com a maior boa vontade do mundo, encontro uns 40 mil objetos aleatórios. São canetas, chaveiros, papéis, CDs, crachás, canivetes (MacGyver), cabos dos mais diferentes tipos etc. Não há padrão. Não há catalogo. Cada coisa tem uma categoria única. É liquido e certo que, depois de uns 40 minutos de arrumação, sou tomado pelo desgosto e acabo colocando a maioria dos troços de volta na gaveta, lamentando o tempo de vida perdido, que não volta mais.
O grande problema é que eu combino, neste corpo magrelo, três dos atributos mais infelizes para um bom organizador de gavetas. Sou saudoso, medroso e preguiçoso. A dinâmica funciona assim: encontro um chaveiro do Paraná horroroso, que jamais usaria, mas não jogo fora por pensar que talvez não terei outra oportunidade de ir ao Paraná. Às vezes são objetos até mais inúteis e eu não descarto por relacionar a algum momento da vida. “Poxa, essa carteirinha da Copa Coca Cola… que momentos!”. Tenho todas as medalhas dos campeonatos de colégio, até aquelas que todos os times ganhavam por participação. Um fracasso. Isso sem falar do tempo que eu perco quando acho alguma coisa bem nostálgica mesmo: “Nossa, lembra quando eu usava essa correntinha? Era na mesma época em que eu entrei no segundo colegial”. Reparem no dialogo franco comigo mesmo. É de uma cumplicidade sem tamanho.
Daí aparecem algumas folhas do Itaú, Faculdade ou afins, com descrições de ordem secundária, benefícios, datas, assinaturas e imagens e penso no quanto elas podem ser necessárias algum dia no futuro, mesmo não tendo muita ideia do que elas representam no presente. Esse maldito Itaú vive me mandando folhas para me pegar em armadilhas.
Por fim encontro uma pilha. Uma pilha de energia mesmo, tipo AA. Atirada ao acaso. Penso: “vou jogar no lixo”. Aí me lembro que tem todo o lance do descarte ecológico. No final coloco tudo de volta na gaveta e me convenço de que dei o meu melhor.

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