Acordei com o solavanco do trem. Percebi o pescoço dolorido e abri os olhos com dificuldade. Senti o frio penetrar nos ossos. O vagão estava escuro e deserto, e lá fora a neve caía pesada.
Nevava tanto que meu primeiro pensamento foi “vai dar merda”. Os olhos foram se ajustando à paisagem, a testa encostada no vidro. Ajustei o cobertor no colo, enquanto percebia uma pequena corrente de ar, vinda de uma fresta na janela, impossível de fechar.
Era noite. Tentei me lembrar de para onde estava indo e a principio não consegui. Fui tomado de pânico, como se estivesse perdido. Mas não era nada disso. Não me apressei em lembrar. Deixei-me levar por essa dúvida a ponto de sentir paz. Mas a paz era inconstante. Os sentimentos perderam a coerência. Misturaram-se, repetiram-se.
Senti no bolso, moedas e o papel amassado do bilhete. Forcei a vista para enxergar alguma palavra naquela escuridão, mas não foi tão difícil assim. Li o destino do trem e suspirei. Olhei a neve e pensei: ainda falta muito.
Por um momento me senti a pessoa mais solitária do mundo. Acordado em alta madrugada, num trem fantasma, gelado de bancos duros.
Foi quando ouvi passos no corredor e vi a claridade entrando por debaixo da porta fechada do vagão. Pensei em levantar e ver quem era, mas logo ouvi três batidas “toc, toc, toc”. Antes que pudesse responder, a porta se abriu de repente. A luz do fogo invadiu o ambiente e o calor, bem vindo, me encheu de esperanças.
Era um senhorzinho, de uns setenta e poucos anos, com um bigode grosso e branco, o chapéu vermelho escuro, combinando com o uniforme. Seus olhos eram azuis, profundos. Tinha um sorriso amigável, e um relógio de bolso, preso numa dessas correntinhas banhadas a ouro, sabe?
- Imaginei que você estivesse acordado. – ele falou. – esse é um trecho complicado do caminho.
Meus olhos passavam daquele sorriso, para o fogo, e do fogo para o sorriso. Voltei a olhar pela janela e tudo estava preto. Não conseguia enxergar mais nada.
- Você sabe me dizer quanto tempo falta, para chegarmos? – perguntei. Estava sentindo uma angustia danada.
Ele manteve o sorriso habitual, mas havia seriedade em sua voz quando respondeu:
- Só Deus sabe.
Agradeci com a cabeça e logo perguntei se havia algum meio de fechar aquela pequena fresta na janela, que estava gelando o vagão inteiro. Ele ficou sério por um momento, pediu desculpas e respondeu que era completamente impossível.
Agradeci novamente e puxei o cobertor até o queixo. Senti um cheiro conhecido, um aroma forte, que me deu saudades de casa. Percebi que ele me estendia uma caneca de café. E enquanto eu bebia o primeiro gole, sentindo meu corpo recobrar um pouco de vida e alegria, o senhorzinho plantou suas palavras de consolo no fundo da minha alma:
- Esta pode ser sua primeira viagem, filho, mas não é a nossa. Nós fazemos isso o tempo todo.
Desejou-me boa noite, encostou a porta e se afastou com seu lampião. Suspirei. Quis pedir a ele que se sentasse e me fizesse um pouco de companhia, mas era tarde. Larguei a caneca no apoio, afugentei os pensamentos inconvenientes e peguei no sono, para sonhar sonhos turbulentos.
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